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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Jardim de Bolero

Minha terra enrijece, cede a gesso, endurece
Dura com o tempo das plantadas de vida.
Ventila espécies que circulam e rodam-se pelo meu jardim
Se ventam, se voam, se entram, se tocam pelo meu jardim
Mancha rugas e rusgas pelo meu jardim
Jardim que parece ser não é pra ser
Pelo meu jardim não se escolhe o que planta, se colhe o que sente
Se dança, se toca
Se...
Senta a poeira quando senta o colo cansado de sentir
Dorme...
E num acordo acorda que acordar é lei de viver
E se dança, se toca
Se...
Meu jardim descobriu tarde que pra ser belo pra si tinha de dançar e tocar
Quando acordar vai ser bonito
Enquanto sonha é tocado, dancei...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Fujo-me

Hoje preciso da escuridão absoluta

Da ausência de qualquer feixe de luz
que possa significar cristalidade.
A falta é a completude da inexatidão
que corrói meu peito em conflito.

Estou tão distante de mim
que nem as lágrimas que me são tão peculiar
hoje já não vêm.

A inexistência do choro,
água sólida de sentido,
sinaliza a implenitude da vida.

Aí, já não resta outro caminho, senão...
Reiventar-se.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Não duvido de mim, mas as dúvidas me duvidam

Sem saber falar sobre incertezas, prefiro alimentá-las no silêncio. As dúvidas não ditas talvez machuquem mais que as respostas dadas por perguntas palavreadas ao vento, contudo, sem rigidez, jamais mensurarão o tamanho da dor.
Num mundo racional, as dúvidas não são bem vistas... Muito menos bem sentidas... Num mundo racional, ver não é sentir. Prefiro aqueles que antecedem o sentido à visão. Quem busca a dúvida não se contenta com um ponto de sentir, necessita de vários. Quem busca a dúvida, reconhece a liberdade, não se deixa sufocar.
Mas, como nem toda escolha, porque ter dúvidas também são escolhas, é feita apenas pelos louros, o imprevisível reserva o que não se pode controlar. A liberdade, aí, já não é sua, é dela própria, e do mundo. Na hora em que se desprende, já é tarde para buscar domínio de si. São as conseqüências.
O silêncio faz me duvidar, mas também duvidar. E quando experienciado deixa uma sensação amarga. O silêncio tem de ser meu, não daquele que quero que fale a mim. A minha liberdade tem o limite do querer não tê-la. Decisão da dúvida consciente. Como escreveu a sábia Clarice, aqui interpretada por mais uma vida, a liberdade é o limite da proteção. A liberdade é a troca da seguridade que se quer ter, e todos querem, mesmo na solidão.

domingo, 29 de maio de 2011

Bilhete deixado na gaveta

Mesmo sendo o que mais gosto de fazer, escrever muitas vezes é uma tarefa difícil. Escrevo abstratamente talvez porque seja mais fácil falar de sentimentos que sinto sem falar de mim mesma...
Começo dizendo assim depois de ter várias vezes jogado o caderno pro lado e pensado: não tem sentido escrever, dizer... e talvez o faça mais algumas vezes até chegar ao final...
Apesar que para o final do bilhete é rápido, porque senão torna-se carta...
Apenas gostaria de lhe dizer que alguma coisa nesse breve caminho nosso não se fez entender entre nós e eu não sei o que é... Somente sei, porque sinto, e dizendo objetivamente, mexeste comigo e, se te entrego este bilhete agora é porque, de fato, sei o que sinto... e o que quero...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Vida simples é não entender, amar, sofrer...

Pinceladas de anedotas desterram as raízes do orvalho seco que caem brotando sementes de carinhosidades nos olhares salgados da lembrança...

Flores q desabrocham na noite e deixam que cantem sabiás de língua presa a novelar lorotas de pensamentos enroscados de dúvidas e incertezas...

Mexilhões que remexem o labirinto escondido dos tucuruvis amarelos que se esqueceram de voar entre as portas da solidão...

Cochiladas dos sapos ternurosos da beira do rio claro de água azul torcida espirrando trovas ao amor de passaredo leve que nunca mais chegou...

Caminhadas de mãos penadas da bisoneta verde que tenta se inventar no mundo da imaginação proibida e que quer ser louca de pedra chuvosa pra não precisar ser lembrada...

E simples assim vão/vou/vamos vivendorando o inatingível entendimento do que é viver...

terça-feira, 3 de maio de 2011

Imperfeiçoando minha humanidade

Quero que antes de olharem meus olhos, vejam-me pela imperfeição, mesmo que essas sejam conhecidas por meio de outras bocas que não as minhas.
Essas tornam, mesmo as mentiras, sentimento vivo do estar sendo humano e aí o que vale mesmo não é dizer o outro, mas ser dito.
E se quem sabe já dizia que a unanimidade é burra, faz a não unanimidade justamente esse, o burro, que permite que o outro se diferencie.
Sinto-me cotidianamente mais humana falhando, disparates de uma não atenção ao mundo que é só minha, na individualidade de minha memória que insistentemente me trai no esquecimento.
E na continuidade de me perceber humana, na roda viva de uma sobrevivência coletiva, vou me convencendo que se são justamente as imperfeições que me propiciam não agradar uns, são também elas o que agrada a outros, e assim vou me aliviando em saber que o fato mesmo é que de verdade existe o que a gente é, como gente.
É certo que para aqueles que usam seu tempo disparando humanidades dos outros, têm também o privilégio de, imperfeiçoando o outro, imperfeiçoar a si mesmo, e também vão se tornando humano.
Todavia, não sei se certo, mas sensível, que humanizando-nos vamos deixando de admirar quem, erroneamente, acha que destrói o outro com falas ásperas. Deixando de ser admirado vai se tornando burro duplamente, uma por fazer com que o outro de quem se fala deixe de ser unânime, mas também em conquistar unanimidade no desapreço de todo o resto.
Prefiro então minha imperfeição alheia, que sendo fato ou não, diz respeito a mim e àqueles que comigo vão humanizando-se. Aos outros, dedico a unanimidade...

domingo, 1 de maio de 2011

Em maio como uma efemérida

Aquilo que é efêmero torna-se esquecível
Passageiro, na mente não se consolida
São como os lagos que somem numa precipitação.
E meu peito insiste em me precipitar
e faz degelar o que antes era tão concreto.

Mas tudo não durou um dia
Um dia após o outro
E de tão extenso, ou intenso, se materializou no plural da efeméride
Querendo ser um astro a cada dia...e noite...
E em sua sucessão ininterrupta não se permite esquecer.

Sinto-me hoje um besouro de maio
Com apenas 24 horas de vida
Que se nega a se alimentar
Ou mesmo não precisa.
Minha boca anseia outro alimento
Aguarda, porém, apenas um dia, esperando não morrer.